sábado, 12 de maio de 2012

CURRÍCULO, COMPLEXIDADE E CÍRCULO DE CULTURA


            
 
RESENHA SOBRE: CURRÍCULO, COMPLEXIDADE E CÍRCULO DE CULTURA

             O currículo escolar ao ser analisado em uma perspectiva ampla, dinâmica e complexa, pressupõe a leitura de um viés histórico e sociológico da representatividade deste componente no âmbito escolar, de tal modo que este desvele as relações de poder e intencionalidade que ocorrem intrinsecamente no fazer pedagógico. Padilha ao tratar desta temática no capítulo a ser referendado, posiciona-se de modo multidimensional, uma vez que vai além do significado de currículo atribuído na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que se refere ao mesmo de modo simplista, isto é, um elemento que organiza os conteúdos a serem assinalados.
             Vale ressaltar, que em termos críticos e analíticos tal concepção, no mínimo, é superada, há muito tempo que o currículo deixou de ser apenas uma área meramente técnica, uma vez que se pode falar de tradição crítica do currículo, cunhada em questões sociológicas, políticas e epistemológicas. É preciso, pois, compreendê-lo não como um elemento inocente e neutro de transmissão do conhecimento social, mas como um mecanismo o qual veicula subjacentemente, relações de poder, visões sociais, políticas, culturais particulares e ideológicas.
            As inúmeras descrições propaladas ao currículo irão desenvolver-se à luz das teorias de currículo, que correspondem às teorias tradicionais, que em seu cerne, atenta-se para os aspectos voltados ao processo de ensino e aprendizagem, avaliação, metodologia, didática e planejamento, delineando-se de modo neutro e cientificista, já as teorias críticas e pós-críticas, por sua vez, não admitem o mito da neutralidade, no caso das teorias críticas, ressaltam-se questões tais como: ideologia, reprodução cultural e social, poder, classe social, capitalismo, currículo oculto. Por conseguinte, as teorias pós-críticas atentam para aspectos que envolvem alteridade, identidade, diferença, subjetividade, gênero, etnia, sexualidade, entre outros pressupostos.
            Para o autor o currículo escolar que se almeja para uma educação cidadã, reflexiva e criativa, denota em uma produção histórica, reiterativa, associada a uma proposta politico-pedagógica progressista efetivando a construção do conhecimento e a relação entre a aprendizagem e desenvolvimento pela comunidade escolar. À medida que, questões como conflitos, contradições, política, poder, cultura, forem reconhecidas enquanto parte integrante do currículo, bem como as situações formais e informais que são estabelecidas neste ambiente por seus atores sociais, certamente, a educação refletirá atitudes de mudança.
            De acordo com Marques (1999, p. 17) “o currículo precisa partir da premissa de que se trata de uma opção por alternativas num universo de possiblidades em aberto, coletivo, no qual sujeitos/atores se sintam corresponsáveis”. Isto posto, torna-se necessário que os escolares reconheçam-se enquanto sujeitos históricos, potencialmente construtores do currículo, situando-se em uma perspectiva humana de interação com diferentes saberes, cujo os atores são fazedores de histórias e, não robores programados à obedecer eternas verdades consideradas inexoráveis.
            Padilha destaca ao longo do referido texto, a necessidade de pensarmos na associação entre currículo e complexidade, objetivando, pois, a reconstrução de uma concepção curricular a qual venha contemplar um movimento favorável à construção da autonomia e a emancipação do ser humano em suas diferentes dimensões, a fim de que se tornem pessoas atuantes frente o processo educacional, o que remete à assunção de uma conduta crítica, política e ideologicamente situada, a favor da superação do status quo e suas formas de exclusão, exploração e inculcação cultural.
            É preciso que se reconheça a falsa neutralidade científica, uma vez que ao fazer ciência, o homem passa a assumir a provisoriedade do conhecimento científico, bem como as suas vinculações ideológicas e políticas. É imperativo que considere quais conteúdos servem à igualdade necessária, o que é imprescindível e o que é acessório, contribuindo de maneira dialética, democrática e responsável na propagação de uma sociedade regida com base nos direitos humanos e na sua dignidade, superando, portanto, a visão manipuladora da escola enquanto aparelho ideológico de estado.
             Tal posicionamento implica redimensionar o currículo, de tal forma que supere a sua danosa fragmentação, a fim de que sua conjuntura se torne transcultural, isto é, promova um encontro multidimensional do ser humano consigo mesmo e com o conhecimento. Trata-se, portanto, de se assumir uma posição ideológico-política diante da realidade e da ciência, uma vez que esta última se compreendida de modo positivo e objetivo, não oferece respostas eficientes frente à sociedade atual, por isso, torna-se exigência da práxis de uma educação que se quer transformadora, radicalmente democrática e libertadora.
            Conforme Moreira (1997, p. 24) “um novo paradigma se impõe, propondo uma relação entre a ciência e a arte, o estético e a vida lúdica, o que reconhece os sentimentos e as paixões como forças mobilizadoras da transformação social”. Entende-se, então, a preocupação com a reconstrução de uma nova subjetividade, que incorpore o multidimensional, pois, os indivíduos e os grupos sociais representam, de fato, articulações variáveis de contexto para contexto.
            Neste pressuposto, torna-se condição precípua compreender a complexidade inerente ao currículo, que não ocorre em uma única lógica, que não se define a partir de explicações simples ou de relações permanentes simploriamente previstas, planejadas e previsivelmente controladas.  Deste modo, busca-se esclarecer ainda mais o conceito de projeto político pedagógico, levando em consideração sua dimensão político-pedagógica, fundamentando uma construção ativa e participativa dos diversos segmentos escolares, que muito contribuem com suas experiências, saberes, culturas e diferenças, enriquecendo e ressignificando assim, as vivencias escolares.
            Para que o ambiente escolar se transforme em um berço de discussões coletivas, faz-se necessário pensar currículo a partir de espaços os quais permitam a ação-reflexão-ação, o que implica o resgate dos círculos de cultura, uma proposta idealizada e concretizada pelo intrépido educador Paulo Freire, além desta proposta muitas outras podem ser viabilizadas, desde que integre o princípio de democratização e valorização da consciência coletiva.
            De acordo com Padilha retoma-se o círculo de cultura como possibilidade de ressiginificação do próprio espaço da sala de aula, visando, pois, diversificar, enriquecer as atividades e as relações pedagógicas na escola, trabalhando-as com base na participação da comunidade escolar e local nos diferentes tempos e espaços didático-pedagógico, podendo, assim, contribuir efetivamente para a ampliação de processos dialógicos e democráticos. Tais princípios tem como base filosófica a promoção da dialética, da participação como referência do respeito ao outro no processo educativo.
            Para Vasconcelos (2009, p. 110) “um currículo que tem como eixo a humanização não deve deixar de lado a vida concreta, deve sim, corresponder ao encontro dos diferentes sujeitos da prática educativa”. Portanto, os círculos de cultura, mesmo tendo ocorrido no início dos anos 60, é atual e pertinente, uma vez que sendo crítica e dialógica propõem propostas que contestam a manutenção do status quo e inclui o povo no processo de reconstrução da cultura, em outras palavras seria um espaço rico no qual as camadas populares teriam vez e voz para manifestarem seus anseios, necessidades e, assim contribuírem de modo significativo na construção de uma sociedade justa, humana e fraternal. Neste sentido, à tomada de consciência torna-se um dever de todos, isto explica o porquê de Freire preferir o termo “círculo de cultura” a “círculo de educação”, para este educador a cultura é inseparável da tomada de consciência.
            O círculo de cultura, proferido por Paulo Freire, é a prova cabal de que é possível construir uma prática escolar que se interpunha aos modelos culturais dominantes, que em seu cerne atrofia a capacidade do pensar no ser humano, chegando ao extremo de idiotizar o potencial comunicativo da relação humana. O contexto atual exige criatividade e ousadia, estando à luz de propostas e ações estratégicas que permitam a todos a superação da alienação cultural, que lamentavelmente, esta hiante em nossa sociedade mediatizada pela banalização da mediocridade viabilizada pelo projeto hegemônico neoliberal.
            Portanto, favorecer o círculo de cultura é relacioná-lo às novas tecnologias, desenvolvendo a capacidade de refletir criticamente a própria técnica e condicioná-la a um dialogo criativo, privilegiando as relações coletivas, mobilizando sistematicamente as camadas populares, a favor de um universo diferenciado em que injustiça, exclusão e exploração não encontrem mais espaço e, assim o mundo seja regido pela necessidade humana e não pelo do capital mercantilista, responsável historicamente por tornar o indivíduo mero objeto de manobra.
                     Por fim, diante do exposto ora enfatizado, conclui-se que o currículo é um termo que vai muito além das “grades curriculares”, projeta-se em uma visão de homem e de mundo, perpassando por vários vieses que compõem as teorias tradicionais, críticas e pós-críticas, tal mecanismo envolve relações de poder, portanto, é político, situacional e ideológico, nunca neutro, dado a intencionalidade que intrinsecamente o permeia, compreendê-lo em uma visão progressista e transformadora pressupõe uma análise complexa e profunda acerca da realidade, de tal modo que seja reconhecida a sua importância a favor de uma nova visão social, onde os menos favorecidos possam encontrar-se no mundo e com o mundo, fato este que implica a construção de uma sociedade democrática, pautada em valores coletivos e, tal mudança precisa ser adotada e compartilhada nas escolas, portanto, a obra de Padilha é direcionada a educadores e educadoras cônscios de seu papel na ressignificação societária, a fim de que seja propagado um mundo mais justo, crítico e, acima de tudo humano.
  
Autoria: Ananin-tucuju - o filósofo da vida

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