FRACASSO
ESCOLAR: UM PARADIGMA A SER DESMISTIFICADO.
RESUMO
O artigo se propõe a levantar alguns aspectos
relevantes referentes ao fracasso escolar, objetivando a formação da
consciência crítica acerca desta problemática há muito presente nas escolas. A
partir de algumas considerações, propor-se-á uma profunda reflexão sobre as
causas que podem ser agentes desencadeadores do insucesso escolar,
compreendendo que a prática do educador é de extrema importância para a
superação desta realidade, a ele cabe incumbência de valorizar, incentivar e
recuperar a todos os aprendizes, oferecendo-lhes diferentes formas de
desenvolvimento, desmistificando o paradigma de que as crianças provenientes
das classes menos favorecidas são por, sua própria condição, relegadas ao uma
vida escolar sem êxito. Dito isto, percebe-se que as ações desenvolvidas nas
escolas são insuficientes para que a criança possa desenvolver todas as suas
potencialidades e assim deixando de lado o verdadeiro sentido da escola que é
de formar cidadãos críticos e conscientes capazes de transformar o meio em que
vive, portanto, é preciso que as novas políticas públicas valorizem toda
singularidade da criança.
As
exigências da sociedade atual são cada vez mais complexas e as práticas de
ensino adotadas na maioria das escolas já não são suficientes para responder
adequadamente a tais anseios, uma das graves consequências disso é o fracasso
escolar de grande parte dos alunos. O importante crescimento de pesquisas sobre
a evasão escolar tem contribuído muito para a compreensão deste processo, em um
sentido mais amplo, a inclusão de todos os gêneros étnicos na escola pública
formando grupos, ao mesmo tempo, ricos em diversidade e complexos nas
diferenças.
Tais aspectos trazem consigo questões
pertinentes em relação aos instrumentos necessários para que todos os alunos
venham dominar o modo próprio da comunidade de letrados, aspectos esses que são
tratados em uma tentativa de melhorar a qualidade do aprendizado e a formação
humana. A complexidade e a magnitude da organização das relações que os alunos
fazem durante a aprendizagem estabelecem uma prática pedagógica flexível e
abrangente, pois, as conjunturas devem contemplar as necessidades emanantes de
diferentes graus de aprendizagem. Optar pela aprendizagem a partir da reflexão,
implica uma prática distinta em relação à que se adota quando o que se pretende
é fazer os alunos reproduzirem conhecimentos.
Ocorre suscitar que o fato em questão
agravou-se quando a maioria da população,
formado por membros das classes trabalhadoras urbanas e rurais, teve acesso à
escola pública e gratuita, esta situação julga-se excessivamente injusta e
inaceitável e sua superação requer aprofundamento e análise da questão.
Diante disto, a expressão “fracasso” é explicada, no Aurélio (1998),
como desgraça; desastre; ruína; perda; mau êxito. Portanto, fracasso escolar
seria o mau êxito na escola, considerado, na apreensão de muitos, como sendo a
reprovação e a evasão escolar. Analisamos essa expressão no seu sentido mais
amplo, indo além da reprovação e evasão, incluindo a aprovação com baixo índice
de aprendizagem.
O debate atual sobre educação contempla
quatro grandes objetivos que são: Ensinar a aprender, ensinar a fazer, ensinar
a ser e ensinar a conviver em sociedade, para abranger esses objetivos o
trabalho de educar necessita desenvolver habilidades além da mera memorização
de conceitos. Verifica-se que o índice de alunos que fracassam na tentativa de
aprender nas séries iniciais do Ensino Fundamental é alto, se faz necessário
saber, as causas e possíveis soluções para este impasse. As novas exigências do
mundo atual incidem em uma nova postura frente à aprendizagem, seria neste
caso, necessário uma revisão das políticas públicas e de seus agentes.
A
respeito do assunto, Paulo Freire aponta que “sem conhecer as interações não há
como educar crianças e jovens numa perspectiva e humanização necessária para
subsidiar políticas públicas e práticas educativas solidárias” (FREIRE, 1978,
p. 86). Por conseguinte, uma educação de qualidade, visa à formação integral do
indivíduo, de tal forma que supere o modelo estático de ensino tradicional, que
forme sujeitos críticos, atuantes e capazes de inferir significativamente no
meio em que vivem, é preciso educar para a transformação pessoal e coletiva.
Percebe-se que ações já desenvolvidas nas escolas, principalmente nas
públicas, têm sido insuficientes, no que se refere ao seu objetivo primeiro: a
transmissão do saber historicamente acumulado, com o intuito de formar cidadãos
críticos, capazes de transformar o meio no qual vivem, buscando uma melhor qualidade
de vida. Esta ineficiência se retrata no fracasso escolar que atinge boa parte
dos que ingressam no sistema educacional público. Como assegura Nagel (1989,
p.10) a escola,
não pode esperar
por Reformas Legais para enfrentar a realidade que lhe afoga. Além do mais, a
atitude de esperar “por decretos” [...] reflete o descompromisso de muitos e a
responsabilização de poucos com aquilo que deveria ser transformado. A escola
tem uma vida interior que, sem ser alterada por códigos legislativos, pode
trabalhar com o homem em nova dimensão, bastando para isso que seus membros se
disponham a estabelecer um novo projeto de reflexão e ação.
A escola enquanto instituição autônoma deve fazer
uso da liberdade que dispõem, respaldada de todo o saber científico que possui,
sobretudo, quando estiver diante de entraves que dificultem o processo
educacional e não pode acomodar-se diante da inércia ou ineficácia dos sistemas
educacionais, ao contrário, deve propor soluções genuínas que possibilitem a
superação dos desafios hora encontrados.
Haja
vista, que a própria LDB 9.394/96 em seu artigo 3º inciso I discorre em seu
texto sobre “a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”,
portanto fica claro que para uma efetiva superação das mazelas que recaem sobre
a educação e uma duradoura vida acadêmica para cada criança na trajetória
escolar não é suficiente apenas garantir sua matrícula, o que requer a atenção
de todos são as condições necessárias para sua manutenção, e isto só é possível
com a garantia de qualidade de ensino, assegurando a todos o direito de
aprender, o que certamente irá significar a estabilidade e o sucesso dos que
nela ingressam.
Ainda a respeito do assunto este acontecimento numa perspectiva de
educação histórico-crítica, perpassa pela garantia de uma educação que propicie
a obtenção de conhecimento científico historicamente acumulado de forma
crítica. Ademais, é importante que aprove, ainda, a concepção da cultura
democrática e potencialize ações rumo à mudança desta sociedade que é
extremamente injusta e opressora, numa perspectiva de que o aluno se perceba
enquanto parte desta sociedade que é contraditória e que se reconheça como
homem sujeito de sua própria história.
Por
outro lado, PATTO 1999, p.35 aponta para a necessidade de se quebrar o estigma
de que o fracasso é culpa do aluno ou de sua família e alerta para a proporção
muito maior dos determinantes institucionais e sociais na produção do fracasso
escolar do que problemas emocionais, orgânicos e neurológicos, rompendo,
portanto, com as visões psicologizantes, da carência cultural e das
dificuldades de aprendizagem. Na verdade devemos observar que não é
interessante para os que detêm o poder, que todos alcancem o sucesso,
principalmente, os oriundos das classes menos privilegiadas, pois em uma
sociedade onde o lucro é sobrepujado ao ser humano, não há lugar para todos.
Em
nossa sociedade ainda há uma forte tendência em responsabilizar a criança e/ou
sua família pelo fracasso escolar, diminuindo ou, em alguns momentos, até
isentando a escola de qualquer responsabilidade. O que muitos profissionais
envolvidos no processo educacional não se dão conta é da perpetuação de
práticas que desumanizam as crianças e contribuem para a criação de meros
reprodutores de uma sociedade capitalista, individualista onde as pessoas são
meros consumidores escravos de seu próprio consumismo.
Conforme PATTO (1999 p 154), é importante notar que:
se nos anos de
predomínio da teoria da deficiência cultural os aspectos intra-escolares
receberam pouca atenção, se na vigência da teoria da diferença cultural a
responsabilidade da escola pelo fracasso ficou limitada à sua inadequação à
clientela, à medida que as pesquisas vão desvendando mais criticamente aspectos
da estrutura e funcionamento do sistema escolar, ao invés de atribuir à
clientela as causas do fracasso escolar ter sido superada, ela foi apenas
acrescida de considerações sobre a má qualidade do ensino que se oferece a
essas crianças. Neste sentido, a pesquisa no início dos anos 80 sobre o
fracasso escolar repete, com algumas exceções, o discurso fraturado que
predominou no período em que vigoraram as ideias escola novistas, quando não
repetem a tentativa decolagem deste discurso afirmando que a escola que aí está
é inadequada à clientela carente.
Isto
posto, podemos perceber que a escola insiste em adotar como referência crianças
da classe média, ignorando os alunos que são provenientes das classes menos
favorecidas, que por sua vez tem suas condições socioeconômicas desconsideradas
no planejamento escolar. Isto acontece devido aos planejamentos serem feitos
prevendo uma criança imaginada e não a criança concreta, aquela que está
inserida em um contexto único. Ademais, as
motivações do fracasso escolar ainda caem sobre os alunos, neste momento não
mais pelos seus problemas orgânicos, mas por sua pobreza.
Outro aspecto relevante no cotidiano escolar são as relações
interpessoais, cabendo ao professor como mediador do processo educacional a
incumbência de negar a superficialidade e a estigmatização das crianças que
apresentam dificuldades de adaptação à vida escolar, evitando com isso um
distanciamento maléfico a aprendizagem e a afirmação do aluno na construção de
seus relacionamentos. Agravando, ainda mais o quadro, o professor pode com tal
prática criar um abismo entre ele e os alunos com defasagens, e pior ainda
fazer com que os mesmo acreditem e absorvam um sentimento de incapacidade, que
acabam carregando como um grande fardo quem sabe pela vida toda.
Pesquisas tem mostrado que os professores interagem melhor com crianças
que apresentam melhor desempenho escolar, tal prática reforça ainda mais as
dificuldades das crianças e as excluem significativamente da participação ativa
em sala de aula, o que na maioria das vezes acaba se traduzindo em
comportamentos inadequados. Uma vez que o tratamento diferenciado dispensado
pelo professor é percebido e sentido pelas crianças que com isso acabam
reproduzindo comportamentos, onde podemos notar que o professor acaba sendo um
agente influenciador na formação da personalidade de seus alunos, e como os
mesmos irão comportar-se com seus pares no tratamento de suas relações
interpessoais e consigo.
De
acordo com MARTINELLI apud AQUINO (2000, p.49) o que se observa,
com mais
frequência é o fato que o aluno admirado ou valorizado pelo professor têm suas
características valorizadas, cada vez mais acentuadas e, consequentemente,
demonstra-as com mais frequência, o que o torna cada vez mais valorizado,
enquanto que o aluno rejeitado ou discriminado passa a se afastar do professor
e, consequentemente, se identifica cada vez menos com aquela situação que o
discrimina e rejeita.
As
reações percebidas na criança que é exposta ao constrangimento da rejeição ou
discriminação, irão contribuir para uma acentuada queda de sua autoestima e
comprometerá consideravelmente seu campo afetivo trazendo danos muitas vezes
irreparáveis para sua carreira acadêmica. Podendo refletir em diversos aspectos
comportamentais tais como: isolamento, dependência, passividade, insegurança e
até mesmo submissão.
Não
obstante, se o educando for estimulado, independentemente de sua condição, seja
qual for sua defasagem, e consegue descobrir prazeres na vida intelectual e
afetiva, se começa a adentrar na questão do conhecimento libertador, no domínio
que pode ter das coisas, na possibilidade de construir outro universo, enfim,
de fazer-se e não apenas deixar-se fazer pelas forças da natureza e da sociedade,
passando a ser uma pessoa mais realizada e a ter a escola como um lugar seguro
de aprendizagem. Isto tudo só será possível com uma educação que leve em
consideração o caráter humano da pessoa e os conhecimentos trabalhados tenham
sentido, pois, toda atividade humanizadora é sempre marcada por um significado,
por um sentido relevante para o sujeito.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das abordagens realizadas torna-se imperativo a superação do
fracasso escolar que não pode ser tarefa de um ou de outro ator social
envolvido no processo educacional, mas é um desafio para todo o Sistema
Educacional Brasileiro, pois o futuro do país quanto ao desenvolvimento
econômico, social, cultural e científico poderá ser comprometido diante de
índices ainda tão elevados de evasão e repetência nas escolas. Essa realidade
se refletirá na possibilidade da construção de uma sociedade mais justa e
igualitária e, inclusive, na independência e soberania da própria nação, pois
nenhum sujeito e/ou Estado terá condições de lutar contra qualquer forma de
exploração se não tiver munido de ferramentas adequadas e estas serão
adquiridas com o domínio dos conhecimentos científicos já produzidos.
Por
fim, se faz necessário o empenho na construção de uma escola desinteressada, no
sentido de não ser atrelada à formação de mão-de-obra para atender às
necessidades do modo de produção capitalista, mas de formação plena do sujeito,
uma instrução intelectual, física e tecnológica para todos, pública e gratuita,
de união do ensino com a produção, livre de interferências políticas e
ideológicas. E Esse processo educativo recuperaria o sentido e o fato do
trabalho como libertação plena do homem. Finalmente entendemos o fracasso
escolar, como fenômeno que expressa à complexidade da sociedade atual,
produzido por múltiplas determinações e não por situações isoladas, ocorrendo
em uma profunda falta de sentido, para muitos, a vida na escola. E dar sentido
a vida acadêmica para todas as pessoas é prioritário, uma vez que, o ensino
alienado, que tem na falta de sentido um dos seus pilares, exclui, estressa,
estraçalha a pessoa.
ótima análise, é necessário que vejamos a questão do fracasso escolar por meio de uma visão crítica, a fim de que se evite esteriótipos que servem, tão somente, para perpetuar a exclusão e responsabilizar as vítimas deste sistema desumano, regido precipuamente por interesses individualistas inculcados pela lógica capitalista. Por outro lado, para que haja a superação de tais estigmas, idubitavelmete, os educadores precisam alocar em sua prática pedagógica aspectos que contemplem os campos afetivo, sociopolítico, técnico e estético, a fim de que desenvolva um esino que contemple a todos e a cada um nas suas diferenças.
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